O Senna Tower ainda tem anos de construção pela frente, mas seu efeito sobre o mercado imobiliário de luxo já pode ser medido. Previsto para ser entregue em 2033, o empreendimento de Balneário Camboriú atingiu R$2,48 bilhões em vendas no primeiro ano após o lançamento oficial, segundo dados divulgados pela FG Empreendimentos à Exame em julho de 2026. O montante corresponde a 29,2% do Valor Geral de Vendas (VGV), estimado em R$8,5 bilhões.
Os números colocam o projeto em uma posição pouco usual: antes mesmo de assumir sua forma definitiva no skyline catarinense, o Senna Tower já funciona como ativo de posicionamento, referência de preços e vitrine internacional para o mercado brasileiro de ultraluxo.
A discussão mercadológica, portanto, vai além da altura do edifício.
Afinal, o que o empreendimento revela sobre demanda, escassez, valorização e disposição de compra em um dos mercados imobiliários mais caros do Brasil?
Desenvolvido pela FG Empreendimentos em parceria com a Marca Senna e a Havan, o projeto prevê 228 unidades distribuídas em 157 pavimentos e mais de 550 metros de altura. Se concluído conforme planejado, deverá ocupar a posição de residencial mais alto do mundo.
O investimento anunciado para a construção é de aproximadamente R$3 bilhões. Já o VGV projetado de R$8,5 bilhões representa a soma estimada do valor de comercialização das unidades (portanto, não deve ser confundido com lucro do empreendimento).
Os preços também colocam o Senna Tower fora do padrão residencial convencional da cidade. Em março de 2026, a FG informou à CNN Brasil que as unidades variavam de R$28 milhões a R$400 milhões e que o empreendimento já ultrapassa R$100 mil por metro quadrado.
Para efeito de contexto, o Índice FipeZAP de maio de 2026 apontava preço médio anunciado de R$15.215 por metro quadrado em Balneário Camboriú. São universos diferentes: o índice abrange o mercado residencial anunciado, enquanto o Senna Tower pertence ao ultraluxo, mas a distância ajuda a dimensionar até onde o projeto tenta estender a fronteira de preços local.
É nesse ponto que entra o poder especulativo do empreendimento.
A FG trabalha com uma tese de valorização apoiada em fatores como localização, oferta limitada, dimensão arquitetônica e dificuldade de reproduzir um projeto semelhante. A empresa chegou a afirmar que espera que o preço por metro quadrado do Senna Tower dobre até 2030. Trata-se, porém, de uma projeção da própria incorporadora, e não de valorização já realizada ou garantia de retorno.
Esse cuidado é importante porque expectativa e desempenho efetivo são conceitos diferentes no mercado imobiliário.
O que já existe de concreto é uma quantidade restrita de residências associada a uma proposta que aposta na singularidade. Em mercados de ultraluxo, a escassez pode assumir importância maior do que em empreendimentos tradicionais, especialmente quando o comprador entende que não haverá um produto exatamente equivalente disponível ao lado.
O Senna Tower procura ocupar justamente essa posição: menos comparável pelo número de quartos ou pela metragem e mais associado à ideia de um ativo excepcional.
O volume comercializado oferece outro indicador relevante. Os R$2,48 bilhões vendidos durante os primeiros 12 meses representam quase um terço do VGV estimado, mesmo com a conclusão prevista apenas para a próxima década.
A composição dessa demanda também merece atenção. Segundo a FG, aproximadamente 10% do valor comercializado até julho de 2026 vinha de compradores internacionais.
Por outro lado, classificar todas essas compras como especulação financeira seria impreciso. A incorporadora informou ao UOL que mais de 80% das unidades já vendidas foram adquiridas para uso próprio. O público reúne principalmente empresários, investidores e famílias de alto patrimônio das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além de compradores estrangeiros.
Há, portanto, duas forças coexistindo: uma expectativa relevante de preservação e valorização patrimonial e uma demanda declarada por residência.
Isso diferencia o potencial especulativo do empreendimento de uma lógica baseada exclusivamente em comprar para revender no curto prazo.
Parte do valor percebido também está fora da construção.
O projeto foi desenvolvido em co-branding com a Marca Senna, marcando a entrada da marca ligada a Ayrton Senna nesse tipo de empreendimento imobiliário. A parceria foi anunciada oficialmente em 2024.
Veja o anúncio oficial da parceria entre Marca Senna e FG Empreendimentos
No ultraluxo, uma associação desse tipo pode acrescentar uma camada de diferenciação que não depende apenas da arquitetura. O nome Senna possui reconhecimento internacional e vínculo emocional com públicos de diferentes gerações, atributos que ajudam a tornar o produto identificável fora do mercado imobiliário brasileiro.
Esse capital de marca também favorece a internacionalização. Em vez de comercializar apenas um apartamento de alto padrão em Balneário Camboriú, a estratégia passa a apresentar um imóvel ligado a um nome conhecido mundialmente e a uma proposta arquitetônica difícil de replicar.
É uma lógica próxima à das branded residences, nas quais marcas de hotelaria, moda, design e outros setores participam da construção de valor do imóvel.
O impacto comercial não se limita às unidades do Senna Tower.
Em 2025, a FG Empreendimentos registrou receita líquida de R$1,36 bilhão, e o projeto respondeu por aproximadamente 16% do resultado da companhia no período. A própria empresa também trata a torre como peça de posicionamento para ampliar sua presença no mercado internacional.
Isso transforma o empreendimento em algo próximo a um produto-vitrine.
Um projeto dessa escala pode aumentar a exposição da incorporadora, abrir relacionamento com compradores estrangeiros e elevar a percepção de outros empreendimentos do portfólio. O efeito econômico, nesse caso, não termina na venda dos 228 imóveis.
Balneário Camboriú também participa desse processo. A cidade já possui forte concentração de edifícios de alto padrão e preços residenciais elevados. Um empreendimento projetado para superar 550 metros reforça essa associação e amplia a visibilidade internacional do mercado imobiliário local.
O Senna Tower já alcançou números expressivos, mas sua valorização ainda precisará ser confirmada pelo mercado. A capacidade de sustentar preços muito acima da média local dependerá da execução do projeto, da demanda internacional e da percepção de escassez.
Por isso, o empreendimento seguirá como um termômetro importante do mercado imobiliário de ultraluxo no Brasil.
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