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Crise no mercado de luxo? No Brasil não!

15/10/2026
Foto: Reprodução/Magnific

Enquanto grandes mercados internacionais de luxo enfrentaram desaceleração nos últimos anos, o Brasil manteve uma trajetória de expansão. 

O país ampliou sua participação no setor, atraiu a atenção de marcas globais e passou a ocupar uma posição mais relevante na América Latina.

Os números ajudam a explicar esse interesse, mas há outra transformação em curso. O consumidor brasileiro de alta renda está mais informado e seletivo, enquanto experiência, procedência, autenticidade e curadoria ganham importância nas decisões de compra.

A combinação coloca o mercado de luxo no Brasil em uma posição particular em 2026: cresce em um período de maior cautela internacional e, ao mesmo tempo, incorpora novas formas de compreender valor.

Mercado de luxo no Brasil cresce acima da média global

O estudo A Nova Era do Mercado de Luxo, da Bain & Company, estimou que o setor brasileiro movimentou R$98 bilhões em 2024. Desde 2022, a expansão média ficou próxima de 12% ao ano, enquanto o mercado global avançou cerca de 3% anualmente no mesmo período.

A projeção da consultoria indica que o setor pode atingir R$150 bilhões até 2030, caso mantenha um ritmo anual de crescimento entre 6% e 8%. 

Confira aqui: estudo da Bain & Company sobre o mercado de luxo no Brasil

Dados apresentados na 15ª edição do LuxuryLab Global Brazil, realizada em São Paulo, reforçam essa perspectiva. Segundo reportagem do Brazil Economy, o mercado superou os R$100 bilhões em 2025 e pode se aproximar de R$120 bilhões em 2026. O Brasil também já responde por quase um terço das vendas de luxo da América Latina e figura entre os mercados emergentes com maior expansão no setor.

Esses resultados contrastam com o ritmo mais contido observado em mercados importantes da Europa e da Ásia.

Por que o Brasil ganhou importância para as marcas de luxo?

O aumento do faturamento cria oportunidades, mas não explica sozinho o interesse pelo país.

Segundo as análises apresentadas no LuxuryLab, o Brasil reúne uma combinação favorável de consumo de alta renda, produção de riqueza local e forte repertório cultural. 

Para marcas internacionais, essas características tornam o mercado brasileiro relevante tanto comercialmente quanto para a construção de novas experiências e narrativas.

A própria composição do setor revela essa diversidade. Alta relojoaria, moda, automóveis, imóveis, hospitalidade, aviação e náutica atendem consumidores com interesses diferentes, embora compartilhem expectativas elevadas em relação a produto, serviço e atendimento.

Esse público também dispõe de mais informação. Antes de uma compra de alto valor, pode pesquisar referências, histórico de preços, materiais, procedência, conservação e reputação de quem conduz a negociação.

A presença de consumidores mais preparados exige uma comunicação igualmente mais consistente.

O consumidor brasileiro está mais seletivo

Um dos pontos destacados no LuxuryLab é a mudança na maneira como o luxo é percebido no país.

Símbolos tradicionais de status continuam presentes, mas dividem atenção com características como qualidade, história, autenticidade, identidade e conhecimento. A escolha deixa de depender exclusivamente do reconhecimento imediato de uma marca.

Na alta relojoaria, essa mudança aparece na procura por referências específicas, modelos históricos e peças vintage. Para colecionadores, ano, configuração, conservação e procedência podem ser determinantes.

Automóveis colecionáveis seguem uma lógica semelhante. Produção limitada, configuração original, relevância histórica e condição do exemplar ajudam a explicar por que alguns modelos permanecem desejados décadas depois do lançamento.

O conhecimento sobre o produto também passa a funcionar como um código dentro do próprio mercado de luxo. Para determinados consumidores, reconhecer aquilo que torna uma peça especial é parte da experiência de possuí-la.

Experiências conquistam uma parcela maior do mercado

O avanço das experiências premium é outra característica importante da indústria atual.

A atualização de 2026 do Altagamma-Bain Luxury Market Monitor estima crescimento de aproximadamente 4% em experiências e ativos de luxo, categoria que contempla áreas como hospitalidade, restaurantes, mega-iates, aviação privada e arte. 

Veja os estudos e análises da Altagamma sobre o mercado global de luxo

O desempenho reforça uma tendência já observada nos últimos anos: consumidores de alta renda destinam uma parcela crescente de seus gastos a viagens, gastronomia, bem-estar e serviços personalizados.

Para as empresas, a consequência é direta. Um produto de alto valor precisa estar acompanhado por uma experiência compatível com as expectativas do cliente.

Atendimento especializado, discrição, personalização e conhecimento técnico influenciam a percepção da marca antes, durante e depois da compra.

Mercado de segunda mão fortalece procedência e colecionismo

Peças usadas também passaram a ocupar uma posição relevante dentro da indústria de luxo.

O levantamento do Boston Consulting Group em parceria com a Vestiaire Collective estimou o mercado global de moda e luxo de segunda mão entre US$210 bilhões e US$220 bilhões em 2025. Até 2030, esse volume pode chegar a US$320 bilhões ou até US$360 bilhões. 

A alta relojoaria é particularmente relevante nessa discussão. Certos relógios mantêm a procura por décadas e podem despertar interesse justamente por pertencerem a períodos específicos da história de uma marca.

Nesse mercado, a procedência se torna decisiva. Autenticidade, documentação, estado de conservação e histórico da peça ajudam a estabelecer confiança e influenciam seu valor entre compradores e colecionadores.

O crescimento do mercado secundário também mostra que novidade deixou de ser o único caminho para o desejo. Dependendo da categoria, idade, escassez e história podem trabalhar a favor de um bem de luxo.

Existe mesmo uma crise no mercado global de luxo?

A resposta depende da região e da categoria analisadas.

Os dados mais recentes indicam uma indústria mundial em fase de recuperação moderada, e não uma retração uniforme. Para 2026, Bain e Altagamma trabalham com crescimento de até 2% para o mercado global de luxo e entre 2% e 4% para os bens pessoais.

A demanda chinesa ainda inspira cautela, enquanto as Américas apresentam desempenho mais favorável. Questões como câmbio, inflação, tarifas internacionais e tensões geopolíticas também continuam interferindo nas estratégias das grandes marcas.

O Brasil não está isolado das condições econômicas internacionais, mas registrou uma expansão expressiva justamente durante um período de menor dinamismo em mercados tradicionalmente importantes para o setor.

Brasil consolida uma nova posição no mercado de luxo

O avanço brasileiro combina a escala econômica com uma mudança no perfil de consumo. Há mais interesse por produtos e experiências premium, porém também cresce a exigência por informação, procedência e atendimento especializado.

Para as marcas, o país passa a representar um mercado que merece estratégias próprias, capazes de considerar características culturais e expectativas locais.

Para consumidores e colecionadores, a expansão amplia possibilidades e torna o conhecimento e confiança ainda mais importantes em negociações de alto valor.

É essa combinação que ajuda a explicar por que, em um período de cautela para parte da indústria internacional, o mercado de luxo brasileiro continua ganhando espaço.

 

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