Enquanto grandes mercados internacionais de luxo enfrentaram desaceleração nos últimos anos, o Brasil manteve uma trajetória de expansão.
O país ampliou sua participação no setor, atraiu a atenção de marcas globais e passou a ocupar uma posição mais relevante na América Latina.
Os números ajudam a explicar esse interesse, mas há outra transformação em curso. O consumidor brasileiro de alta renda está mais informado e seletivo, enquanto experiência, procedência, autenticidade e curadoria ganham importância nas decisões de compra.
A combinação coloca o mercado de luxo no Brasil em uma posição particular em 2026: cresce em um período de maior cautela internacional e, ao mesmo tempo, incorpora novas formas de compreender valor.
O estudo A Nova Era do Mercado de Luxo, da Bain & Company, estimou que o setor brasileiro movimentou R$98 bilhões em 2024. Desde 2022, a expansão média ficou próxima de 12% ao ano, enquanto o mercado global avançou cerca de 3% anualmente no mesmo período.
A projeção da consultoria indica que o setor pode atingir R$150 bilhões até 2030, caso mantenha um ritmo anual de crescimento entre 6% e 8%.
Confira aqui: estudo da Bain & Company sobre o mercado de luxo no Brasil
Dados apresentados na 15ª edição do LuxuryLab Global Brazil, realizada em São Paulo, reforçam essa perspectiva. Segundo reportagem do Brazil Economy, o mercado superou os R$100 bilhões em 2025 e pode se aproximar de R$120 bilhões em 2026. O Brasil também já responde por quase um terço das vendas de luxo da América Latina e figura entre os mercados emergentes com maior expansão no setor.
Esses resultados contrastam com o ritmo mais contido observado em mercados importantes da Europa e da Ásia.
O aumento do faturamento cria oportunidades, mas não explica sozinho o interesse pelo país.
Segundo as análises apresentadas no LuxuryLab, o Brasil reúne uma combinação favorável de consumo de alta renda, produção de riqueza local e forte repertório cultural.
Para marcas internacionais, essas características tornam o mercado brasileiro relevante tanto comercialmente quanto para a construção de novas experiências e narrativas.
A própria composição do setor revela essa diversidade. Alta relojoaria, moda, automóveis, imóveis, hospitalidade, aviação e náutica atendem consumidores com interesses diferentes, embora compartilhem expectativas elevadas em relação a produto, serviço e atendimento.
Esse público também dispõe de mais informação. Antes de uma compra de alto valor, pode pesquisar referências, histórico de preços, materiais, procedência, conservação e reputação de quem conduz a negociação.
A presença de consumidores mais preparados exige uma comunicação igualmente mais consistente.
Um dos pontos destacados no LuxuryLab é a mudança na maneira como o luxo é percebido no país.
Símbolos tradicionais de status continuam presentes, mas dividem atenção com características como qualidade, história, autenticidade, identidade e conhecimento. A escolha deixa de depender exclusivamente do reconhecimento imediato de uma marca.
Na alta relojoaria, essa mudança aparece na procura por referências específicas, modelos históricos e peças vintage. Para colecionadores, ano, configuração, conservação e procedência podem ser determinantes.
Automóveis colecionáveis seguem uma lógica semelhante. Produção limitada, configuração original, relevância histórica e condição do exemplar ajudam a explicar por que alguns modelos permanecem desejados décadas depois do lançamento.
O conhecimento sobre o produto também passa a funcionar como um código dentro do próprio mercado de luxo. Para determinados consumidores, reconhecer aquilo que torna uma peça especial é parte da experiência de possuí-la.
O avanço das experiências premium é outra característica importante da indústria atual.
A atualização de 2026 do Altagamma-Bain Luxury Market Monitor estima crescimento de aproximadamente 4% em experiências e ativos de luxo, categoria que contempla áreas como hospitalidade, restaurantes, mega-iates, aviação privada e arte.
Veja os estudos e análises da Altagamma sobre o mercado global de luxo
O desempenho reforça uma tendência já observada nos últimos anos: consumidores de alta renda destinam uma parcela crescente de seus gastos a viagens, gastronomia, bem-estar e serviços personalizados.
Para as empresas, a consequência é direta. Um produto de alto valor precisa estar acompanhado por uma experiência compatível com as expectativas do cliente.
Atendimento especializado, discrição, personalização e conhecimento técnico influenciam a percepção da marca antes, durante e depois da compra.
Peças usadas também passaram a ocupar uma posição relevante dentro da indústria de luxo.
O levantamento do Boston Consulting Group em parceria com a Vestiaire Collective estimou o mercado global de moda e luxo de segunda mão entre US$210 bilhões e US$220 bilhões em 2025. Até 2030, esse volume pode chegar a US$320 bilhões ou até US$360 bilhões.
A alta relojoaria é particularmente relevante nessa discussão. Certos relógios mantêm a procura por décadas e podem despertar interesse justamente por pertencerem a períodos específicos da história de uma marca.
Nesse mercado, a procedência se torna decisiva. Autenticidade, documentação, estado de conservação e histórico da peça ajudam a estabelecer confiança e influenciam seu valor entre compradores e colecionadores.
O crescimento do mercado secundário também mostra que novidade deixou de ser o único caminho para o desejo. Dependendo da categoria, idade, escassez e história podem trabalhar a favor de um bem de luxo.
A resposta depende da região e da categoria analisadas.
Os dados mais recentes indicam uma indústria mundial em fase de recuperação moderada, e não uma retração uniforme. Para 2026, Bain e Altagamma trabalham com crescimento de até 2% para o mercado global de luxo e entre 2% e 4% para os bens pessoais.
A demanda chinesa ainda inspira cautela, enquanto as Américas apresentam desempenho mais favorável. Questões como câmbio, inflação, tarifas internacionais e tensões geopolíticas também continuam interferindo nas estratégias das grandes marcas.
O Brasil não está isolado das condições econômicas internacionais, mas registrou uma expansão expressiva justamente durante um período de menor dinamismo em mercados tradicionalmente importantes para o setor.
O avanço brasileiro combina a escala econômica com uma mudança no perfil de consumo. Há mais interesse por produtos e experiências premium, porém também cresce a exigência por informação, procedência e atendimento especializado.
Para as marcas, o país passa a representar um mercado que merece estratégias próprias, capazes de considerar características culturais e expectativas locais.
Para consumidores e colecionadores, a expansão amplia possibilidades e torna o conhecimento e confiança ainda mais importantes em negociações de alto valor.
É essa combinação que ajuda a explicar por que, em um período de cautela para parte da indústria internacional, o mercado de luxo brasileiro continua ganhando espaço.
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